Os olhos mensageiros
Nestas poucas páginas, conto a vocês a história de alguém, ou alguma coisa, que sempre usava preto, tinha uma franja comprida, que tapasse todo o seu rosto, era sombrio, um vulto que a todos assustava, ninguém o conhecia, não sabiam seu nome, de onde vinha e nem para onde ia, nem sequer sabiam sobre sua família, parecia ter sido criado nas sombras, aparecia em qualquer lugar a qualquer hora sem ser notado, só era visto quando queria. Alguns o julgavam como um extraterrestre que vinha de um planeta distante e desconhecido, já outros, imaginavam que ele vinha de outra dimensão. Ele, sempre calado, olhando para o chão, mãos nos bolsos, perambulando pelas ruas de uma pequena cidade, perdida no mapa.
Foi então que eu o conheci. Ele estava sentado no banco da praça, com fones de ouvido, olhando para baixo, a música parecia triste, e eu me aproximei. Eu era nova na cidade, e precisava saber onde era o supermercado. Então disse:
-Com licença senhor, sabe me dizer onde é o supermercado?
Ele não respondeu, permaneceu imóvel, olhando para o chão.
-Senhor?
Não obtive resposta.
-Com licença.
Ele levantou a cabeça levemente, a fim de demonstrar que estava ouvindo, sem querer deixou a mostra seu olho direito, era azul, bem claro, quase cristalino, se escondia em baixo de seus cabelos lisos e negros.
Sussurrou com uma voz baixa e rouca:
- Fica ao lado da papelaria, á quatro quadras a esquerda.
-Obrigada.
Claro que inicialmente estranhei ao ver alguém assim, era um rapaz misterioso e estranho, mas com olhos apaixonantes. Eu tenho olhos e cabelos castanhos, minha mãe era loira e tinha olhos azuis, mas herdei os olhos de meu pai, que era moreno. Eu o vi outras vezes na praça, e um dia fui até ele, todos os dias pensava naqueles olhos. Parecia que queriam dizer algo, que tinham um pedido de socorro, mas não o podiam dizer. Aproximei-me e disse:
-Oi
Ele apenas assentiu.
-Muito obrigada por me dizer onde era o supermercado aquele dia, sou nova na cidade.
Repetiu o gesto.
-Seus olhos... São muito bonitos.
E ficou paralisado, como se sentisse vergonha, se encolheu um pouco, e dessa vez respondeu, ainda mais baixo.
-Obrigado.
Depois disso virou levemente o rosto, a fim de me reconhecer. Parecia não ter contato social há muito tempo. Então me perguntou, com a voz baixa e rouca, gaguejando:
-Qual seu nome?
-Luísa, e o seu?
-Alexandre.
Senti-me feliz no momento em que me perguntou o meu nome, senti que o estava ajudando, eu sabia, que mesmo que não pudesse ver seus olhos, eles já não me pediam mais socorro, provavelmente agora me agradeciam. Alexandre tinha dificuldade em falar por si próprio, e eu me sentia bem quando falava com ele, eu estava ajudando-o, um trauma de infância, um medo, não sei, mas algo iria descobrir sobre este medo de falar.
-Quantos anos você tem?
Ele permaneceu calado.
-Por que não me respondes?
-Não te respondo, pois você só quer saber quem sou eu, para contar a todos, não se interessa por mim, e sim a dizer a todos quem sou eu.
-Me interessa sim, quero conhecer-te, nesta cidade apenas conheço você, como já disse,sou nova aqui.
-Se é assim, tudo bem, mas prefiro não dizer minha idade.
-Ok, tenho que ir, tchau.
-Tchau.
Sentia-me ainda mais feliz com ele, eu, naquela época, era secretária de uma psicóloga, me sentia mais próxima do meu emprego falando com ele, eu queria ajuda-lo. Ele era bem desconfiado, parecia falar baixo para esconder sua voz, mas, para quem tem medo de falar, mesmo que seja pouco, dizer o nome deve ser um grande passo.
Naquela noite fui dormir pensando nele, Alexandre... Acordei às sete horas no dia seguinte, atrasada para o trabalho, que começava as sete horas e quinze minutos. Corri para me arrumar e chegar a tempo. Passei de carro pela praça e ninguém estava lá, mas depois do trabalho, se via um vulto, olhava discretamente para os lados a procura de algo, a procura de mim. Aproximei-me dele.
-Oi Alexandre.
-Oi Luísa.
-Tudo bem?
-Não.
-Por quê?
-Não interessa.
-Hm... Ok se precisar falar ou desabafar sou toda ouvidos.
-Não vou precisar-hesitou durante um tempo- A propósito, minha idade, bem, eu tenho dezenove. E você?
-Eu tenho vinte e um.
-Você é três anos mais velha que eu...
-Sou sim...
E assim o tempo foi passando... Todos os dias nos encontrávamos na praça e eu descobria mais sobre ele, 3 anos depois eu já o considerava meu melhor amigo, apesar de ele ainda falar baixo, e ter aquela insegurança, mas já me contava algumas coisas, mas ainda tinha medo, medo de tomar confiança em alguém. Foi então que eu o perguntei.
-Por que tanto esconde teus olhos? Eles são tão bonitos.
-É uma longa história
-Conte!
-Bem... Desde pequeno, as pessoas prestavam atenção em meus olhos, e sempre que olhavam, adivinhavam o que eu estava pensando ou sentindo, como se eu o tivesse dito, eu me frustrava, meus olhos transmitiam mensagens que não deveriam ser reveladas ao mundo, que deveriam permanecer apenas comigo, desde então evitei olhar nos olhos das pessoas, mas era quase inevitável, não podia lançar um olhar a alguém que eu gostava, e automaticamente, este alguém descobria tudo o que eu sentia, e agora eu então evito totalmente olhar nos olhos das pessoas, tento esconder o que sinto até pela voz, mas não sei se funciona...
-Olhe para mim, gostaria de ver como é isso.
Ele respirou fundo e me olhou nos olhos.
Finalmente o entendi, no momento em que me olhou, seu olhar profundo me narrou uma carta, com tudo que Alexandre gostaria de dizer, uma carta que permaneceu escondida durante anos. Assustei-me e me senti aliviada ao mesmo tempo, finalmente descobri o que se passava naquela mente, e seus olhos me ditaram algo que nunca pensei que sairia de Alexandre: “No começo tinha medo de me aproximar muito de você, infelizmente meu pesadelo se realizou, não que eu não tenha gostado disso”.
Parece algo muito simples, mas para alguém com medo de falar, ou melhor, de olhar, foi um grande passo. Desde então encontramos a solução para seus problemas, sim, foi difícil, mas agora Alexandre usa um par de óculos, e por via das dúvidas, tenta controlar seus pensamentos quando olha para alguém, e nem todos recebem a incrível
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